Os manuscritos de Qumran e a Comunidade Judaica do Mar Morto

Temos a honra e o privilégio de ter entre nós uma curiosa exposição sobre antiquíssimos manuscritos bíblicos e todo o contexto arqueológico em que se encontravam envolvidos. Na verdade, os Documentos de Qumran, ou Manuscritos do Mar Morto, ou Rolos do Deserto de Judá, já que variados são os nomes para indicar a sensacional descoberta deste conjunto de documentos judaicos, fazem-nos dar o salto qualitativo e cronológico do século X d.C. para o século II a.C., da Idade Média para antes de Jesus Cristo.

Na verdade, estes numerosos documentos manuscritos, mais de 800, e inumeráveis e complicados fragmentos, constituem verdadeira biblioteca. Por um lado, apresentam-nos documentos em hebraico, aramaico e grego; por outro lado, dada a importância e antiguidade dos manuscritos bíblicos, põem-nos diante do problema científico da fidelidade e veracidade do texto hebraico massorético, constituído bastante mais tarde; dão-nos ainda a conhecer o quadro ideológico judaico ao tempo do nascimento do Evangelho cristão, isto é, o ambiente vital em que o Cristianismo nasceu.

Com os documentos de Qumran, portanto, é todo um labirinto de problemas a afectar o mundo das ciências bíblicas e das origens do Cristianismo, que veio trazer algumas perturbadoras perguntas sobre a figura de João Baptista, cuja vida e pregação os Evangelhos cristãos situam no Deserto de Judá. Terá ele sido, afinal, um membro desta desaparecida comunidade, possivelmente essénica, que, ao fugir dos romanos aquando da primeira revolta judaica de 66-70, escondeu os seus preciosos manuscritos? O próprio Cristianismo é tocado pela questão do messianismo e pela hipotética identificação do “Mestre de Justiça” com Jesus Cristo.

Terá mesmo Jesus sido influenciado pelas doutrinas dos essénios? Terá Jesus aprendido ou tirado deles alguma coisa?

Texto inédito. Conferência proferida no Museu dos Transportes e Comunicações, Porto, no dia 12 de Maio de 2005.

 

Os manuscritos de Qumran Parte I de IV

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I – O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas

Um mero acaso está na origem da mais sensacional e importante descoberta de documentação hebraica 1. Na Primavera de 1947, um pastor da tribo beduína dos Ta`âmirah, que vagueiam com seus rebanhos ao sabor da transumância entre Belém e o Mar Morto, o Mar do Sal para os hebreus, Yam HaMmelah, encontravase quase na embocadura do Wâdi Qumran, um desses muitos ribeiros secos, que atravessam o deserto de Judá. Estava preocupado e aflito pelo desaparecimento duma cabra. Olhando para a parede rochosa do Wâdi, viu um buraco e atirou uma pedra, porque talvez a cabra tivesse entrado por ali. Ficou, porém, atarantado porque a pedra produzira um baque, como se se tivesse partido qualquer objecto de barro.

Assustado, juntou o rebanho e partiu para o acampamento, mas, ainda assim, decido a voltar com um amigo para encontrar resposta àquele ruído estranho. Muhammad ed-Di`b (Maomé o Lobo) voltou no dia seguinte com um primo, e penetraram na gruta. Descobriram, então, uma gruta com pedaços de barro partidos e 8 jarras ou ânforas intactas, 7 das quais vazias, mas dentro da oitava acharam três rolos de couro, que levaram a um antiquário de Belém para vender. Este, pensando que estavam escritas em caracteres siríacos, levou-as a Mar Atanásio, arquimandrita do mosteiro siríaco de S. Marcos de Jerusalém.

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Era a descoberta em 1947 da gruta nº 1 de Qumran (1 Q). A notícia da descoberta divulgou-se e outros beduínos começaram a fazer pesquisas por conta própria, de tal modo que em Dezembro de 1947, a Universidade Hebraica de Jerusalém, por meio do arqueólogo judeu Eliezer Sukenik, que tinha intuído a antiguidade dos documentos e a sua ligação aos essénios, comprou um maço de três manuscritos, que hoje se conservam e mostram através de réplicas no Santuário do Livro em Jerusalém.

Entretanto, em Fevereiro de 1948, Mar Atanásio mostrou os 4 rolos da 1 Q à ASOR (American School of Oriental Research) para ver se os seus técnicos podiam decifrar aquela estranha escrita. Contudo, o rebentar da guerra pela independência de Israel, obrigou-o a emigrar para os Estados Unidos, levando consigo os manuscritos, onde, em seguida, por intermédias pessoas, o novo Estado de Israel os comprou por 250 mil dólares.

Após o armistício da guerra Palestino-Israelita, em Julho de 1948, com a divisão da Palestina entre Israel e a Jordânia, a parte oriental da Palestina, chamada Cisjordânia, ficou integrada no Reino Hashemita da Jordânia e, logo no começo de 1949, o Departamento de Antiguidades da Jordânia, em colaboração com a École Biblique et Archéologique Française e outras instituições científicas de Jeru- salém oriental, empreendeu escavações na região de Qumran, cujas descobertas arqueológicas, desde 1947 a 1958, foram logo estudadas e publicadas.

 

Os Manuscritos de Qumran são um tesouro arqueológico!

 

Quando em 1951 decorria a campanha associada de escavações, os beduínos trouxeram a Jerusalém mais um lote de documentos descobertos um pouco mais abaixo nas grutas de Murabba`ât, que foram datados da 2ª Guerra Judaica, entre 132-135, a revolta de Bar Kokheba (Filho da Estrela) no tempo de Imperador Adriano.

Há mesmo algumas cartas autografas deste chefe de rebelião, considerado um avatar messiânico ou realização messiânica da profecia de Balaão, segundo o Livro dos Números 24, 15-18: “Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo. Uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel”.

Em Fevereiro de 1952, os beduínos Ta`âmirah descobriam a 2 Q com fragmentos semelhantes aos da 1 Q. Imediatamente se associaram em pesquisa arqueológica, sob a direcção do Pe. Roland De Vaux, OP, os vários organismos interessados na antiguidade (Direction des Antiquités de Jourdanie, École Biblique et Archéologique Française, American School of Oriental Research, Palestine Museum ou Rockefeller Museum).

 

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De facto, passaram a pente fino numa pesquisa arqueológica sistemática toda a região da zona rochosa ou falésia de Qumran com uma extensão de 8 quilómetros passando por `Ain Fesha, a fonte de água potável da região, até às grutas Murabba´at. Exploraram também o sítio das ruínas das instalações de Qumran ou antigo mosteiro de Qumran, possivelmente sede dos essénios. Trata-se de Hirbet Qumran, mas chegaram também à 3 Q com dois rolos de cobre, e, mais no interior, exploraram Hirbet Mird, restos de antigo mosteiro bizantino, perto de Mar Saba, onde descobriram documentos gregos do século VIII depois de Cristo.

Contudo, em Setembro de 1952, os beduínos, guiados pela história da perdiz, contada por um ancião, fizeram-se eles também pesquisadores e, ao longo do Wadi Qumran, descobriram as grutas 4, 5, 6 Q. Entretanto, foi criado em 1960 um grupo de estudiosos, que eu conheci no Museu Rockefeller em 1961 (John Allegro pela Universidade de Manchester, John Strugnel pela de Oxford, os Padres João Starky e José Tadeu Milik por Paris e outros), os quais foram fazendo a decifração e leitura dos documentos no Museu Palestiniano ou Rockefeller Museum, na zona oriental de Jerusalém ou Jerusalém Velha. Neste comenos, a Universidade de Oxford, por meio de Millar Burrows, iniciava a publicação: Discoveries in the Judaean Desert.

Todavia, seria longa, difícil e controversa a leitura dos documentos. Em França, André Dupont-Sommer traduziu os textos principais e levantou algumas interrogações a esse respeito. Também John Allegro, um dos especialistas dos textos, embarcou, à luz dos mesmos, na visão mítica de Jesus, negando a sua historicidade e reduzindo-o uma espécie de anestesiante cogumelo sagrado (The sacred Mushroom). De 1955 a 1956, novas escavações, sempre dirigidas pelo Pe. De Vaux, acabaram por pôr a descoberto as 11 grutas de Qumran, sendo as mais importantes a 1 Q descoberta em 1947, a 4 Q em 1952, a 11 Q em 1956.

Depois de algumas hesitações e divergências, é ao Pe. De Vaux que se deve o sistema em vigor das siglas para a citação dos documentos de Qumran, apontando o número da gruta e a inicial de cada documento (1 QS = Serek HaYahad; 1 QM = Milhamah; 1 Q P = Pesher de Habacuc; 1 QH = Hodayot; f indica fragmento: 1 Q 35f7) ou antepondo a este o M (grutas de Murabba`at), ou pospondo o P (papiro). Com a vitória da Guerra dos Seis Dias, que em 1966 levou Israel a tomar a faixa ocidental do Jordão e toda a zona de Qumran até Eilat ou Aqaba, começou a levantar-se uma onda de crítica à demora na leitura e publicação dos textos de Qumran, como se algum intencional atraso ou discreto secretismo favorecido pela Igreja Católica acerca das origens cristãs, quisesse encobrir a verdade dos documentos.

 

Os Manuscritos de Qumran ficam localizados a 12 km de Jericó e a cerca de 22 quilômetros a leste de Jerusalém, em Israel

 

Ao mesmo tempo, a comissão internacional tinha os seus membros a envelhecer, com Strugnel diminuído e convertido do Anglicanismo ao Cristianismo, mesmo contando com o dinamismo do epigrafista Emílio Puech do CNRS, o que favoreceu ainda mais a campanha que eu acompanhei pela revista “Biblical Archaeology Review”. Era preciso apressar a leitura dos textos e completa publicação dos manuscritos e é esse desafio que os cientistas ficam a dever à Universidade Brigham Young pelo seu acordo com o governo de Israel em 1983 e pelo denodo com que se atirou à tarefa, ajudada por Emmnuel Tov. Com muito trabalho, imenso esforço e paciência mais que beneditina, foi possível termos hoje a edição completa em 6 volumes dos “Discoveries in the Judaean Desert” pela E. J. Brill de Leiden.

Os textos estão todos publicados, abertos aos estudiosos de qualquer religião, e desapareceu a maldosa tentativa de “soupçon”. Há manuscritos dispersos por várias instituições, mas os dois depósitos principais são o belíssimo “Santuário do Livro”, cuja silhueta decalca a típica tampa das jarras de Qumran junto ao Museu de Israel em Jerusalém e o “Rockefeller Museum”.

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